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| Jorge de Sena (1919-1978) |
“[…] Por uma tolerância muito análoga à de Camões (e contraditoriamente muito semelhante à de Pessoa) , resultante de ver-se o amor e a expressão dele como suprema dignidade, ainda que esse amor não seja senão vida sexual ou porque o é – e isto ainda é revolucionário nos quatro últimos séculos de literatura portuguesa –, Régio, como Pessoa antes dele, defendeu António Botto (cujos atrevimentos já outros escritores haviam protegido). Mas não o defendeu, como Pessoa fizera, em termos esteticistas, invocando o direito de admirar-se a beleza masculina ou de expressar-se o que as literaturas clássicas já haviam dito, nos termos do Pessoa – Álvaro de Campos (ninguém tem que ver com a vida de cada um); procurou ver nele, para lá de efeminamentos chocantes, e independentemente dos sexos envolvidos, uma expressão da dialética dos sentimentos e do desejo sexual, como este se contenta ou se recusa, como se acende e se esvai – e sob este especto, bem mais do que Régio brilhantemente viu ao falar do amor em Botto, este é realmente, em raros poemas excecionais, de uma lucidez que raros heterossexuais atingiram na poesia portuguesa. O cinismo esteticista do exibicionismo de Botto permitiu a este ver para além de convenções a que não estava preso (e a que descaradamente prestou homenagem quando achou que lhe convinha – mas nisso não terá ido em verso mais longe do que outros na vida privada), e que a promoção puritana e pequeno-burguesa reinstaurou, em grande parte, na vida portuguesa das últimas décadas.”
in: SENA, Jorge de (1974, maio), «O heterónimo Fernando Pessoa e os Poemas Ingleses que publicou», reprod. in Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 93-4.


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