21/12/2013

Ver para além de convenções - Testemunho de Jorge de Sena

Jorge de Sena (1919-1978)








“[…] Por uma tolerância muito análoga à de Camões (e contraditoriamente muito semelhante à de Pessoa) , resultante de ver-se o amor e a expressão dele como suprema dignidade, ainda que esse amor não seja senão vida sexual ou porque o é – e isto ainda é revolucionário nos quatro últimos séculos de literatura portuguesa –, Régio, como Pessoa antes dele, defendeu António Botto (cujos atrevimentos já outros escritores haviam protegido). Mas não o defendeu, como Pessoa fizera, em termos esteticistas, invocando o direito de admirar-se a beleza masculina ou de expressar-se o que as literaturas clássicas já haviam dito, nos termos do Pessoa – Álvaro de Campos (ninguém tem que ver com a vida de cada um); procurou ver nele, para lá de efeminamentos chocantes, e independentemente dos sexos envolvidos, uma expressão da dialética dos sentimentos e do desejo sexual, como este se contenta ou se recusa, como se acende e se esvai – e sob este especto, bem mais do que Régio brilhantemente viu ao falar do amor em Botto, este é realmente, em raros poemas excecionais, de uma lucidez que raros heterossexuais atingiram na poesia portuguesa. O cinismo esteticista do exibicionismo de Botto permitiu a este ver para além de convenções a que não estava preso (e a que descaradamente prestou homenagem quando achou que lhe convinha – mas nisso não terá ido em verso mais longe do que outros na vida privada), e que a promoção puritana e pequeno-burguesa reinstaurou, em grande parte, na vida portuguesa das últimas décadas.”


in: SENA, Jorge de (1974, maio), «O heterónimo Fernando Pessoa e os Poemas Ingleses que publicou», reprod. in Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 93-4.

19/12/2013

Canção «EU ONTEM PASSEI O DIA» [1922] de António Boto


Mural em grafíti "Lusíadas" [pormenor], na Av. da Índia
em Lisboa. Autoria de ARMcollective
Imagen e mais informação in revista Visão



Com todo o meu afeto – a Teixeira de Pascoaes

Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de águas sem fim…

Ó sepultura da minha raça,
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

«Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
— Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
………………………………

E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!

António Boto



Versão deste poema, in Canções, 2.ª ed., Lisboa: Olisipo, 1922.
[Canção n.º "XXVI" desta edição]

17/12/2013

Cronobiografia de António Boto

O escritor no café Martinho da Arcada, onde por vezes
se encontrava com o seu amigo Fernando Pessoa

1897

[foto da biblioteca AB, atual]

  • António Tomás Boto nasceu a 17 de agosto de 1897, às 8 horas, no Casal da Concavada, do concelho de Abrantes. É filho de Maria Pires Agudo e Francisco Tomás Boto.

1902

Rua da Adiça, n.º 22, em Alfama
  • A sua família muda-se para Lisboa, onde o pai trabalhará nas fragatas do Tejo. Passam a residir na Rua da Adiça, n.º 22, em Alfama.

1917

  • Publica Trovas [poesia].

1918

  • Publica Cantigas da Saudade [poesia].

1919

  • Participa no projeto Cantares: versos de António Botto: músicas de Nicolau d'Albuquerque Ferreira: ilustrações do pintor António Carneiro.

1920

Rua da Madalena, n.º 151, 2.º Esq., Lisboa
Fotogr. de Francisco Lopes [Exposição]
  • Passa a morar na Rua da Madalena, n.º 151, 2.º Esq., Lisboa.
  • Publica Canções do Sul [poesia].

1921

Fotografia artística inclusa em Canções
  • Publica a 1.ª edição de Canções, com carta-prefácio de Teixeira de Pascoaes.

1922

  • Colabora com poemas na revista Contemporânea.
  • Publica a 2.ª edição de Canções – “muito aumentada, com um retrato do autor, palavras de Teixeira de Pascoaes e novas referências por Jaime Balsemão”, Lisboa: «Olisipo» - Sociedade Editora [de Fernando Pessoa], 1922.

1923

«Aviso por causa da moral»
- por Álvaro de Campos
  • Publica Motivos de beleza [poesia].
  • Rebenta a polémica em torno da 2.ª edição de Canções que – juntamente com Decadência de Judith Teixeira e Sodoma Divinizada de Raul Leal – é considerado imoral e mandado apreender pelo Governo Civil de Lisboa, na tarde de 5 de março. A questão envolverá o autor dos poemas, a Liga dos Estudantes das Escolas Superiores de Lisboa; o heterónimo pessoano Álvaro de Campos e mesmo o mestre Aquilino Ribeiro, acérrimo defensor dos autores com obras banidas.

1924

  • Publica «Cartas que me foram devolvidas» [prosa poética] na revista Athena (n.º 1, 1924), dirigida por Fernando Pessoa. – Estes textos serão posteriormente [1932] publicadas em volume.
  • Publica Curiosidades estéticas... [poesia].
  • Parte para Angola como funcionário público.

1925


Santo António do Zaire, c.1935-39
Fotógrafo: Elmano Cunha e Costa
IICT/ACTD/Arquivo Histórico Ultramarino 13251

  • Desempenha a função de Chefe da Repartição Política e Civil do Zaire, em Santo António do Zaire – atual Soyo, cidade situada no extremo norte angolano, já na fronteira com o Congo –, tendo também trabalho em Luanda.
Soyo, na província do Zaire, em Angola

  • Regressa a Portugal, sendo colocado no posto antropométrico do Governo Civil de Lisboa.
  • Publica Pequenas esculturas [poesia].

1927

Luís Fernando de Orleans y Borbón 
Fotografia in Wikipédia [clicar no nome]
  • Viaja a Itália, onde passa uma temporada na companhia do príncipe espanhol Luís Fernando de Orleans y Borbón [05.11.1888 – 20.06.1945]. Luís Fernando era gay e gostava de se vestir como mulher, tendo mesmo aparecido em espetáculos como bailarina. Amigo de António Boto e de Marcel Proust, este príncipe “maldito” passeou a sua “pequena majestade” por os salões e tugúrios de Paris da Belle Époque.
  • Publica Olympíadas: canções.

1928

  • A convite de José Régio, inicia a sua colaboração na revista Presença (n.º 10, março de 1928) com o texto «Canção sobre um eterno motivo».
  • Publica Dandysmo [poesia].

1929

  • Em abril/maio, é homenageado na Presença com a publicação da «Canção de Outono» e a tábua bibliográfica das suas obras.
  • Publica, em coautoria com Pessoa, três fascículos de uma Anthologia de poemas portuguezes modernos, a qual será publicada em volume, em 1944.

1930

  • Colabora na organização do “Primeiro Salão dos Independentes”, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

1931

  • Publica O livro das crianças [contos], com ilustrações de Carlos Carneiro.

1932

  • Publica em volume Cartas que me foram devolvidas – com um estudo crítico por Fernando Pessoa.

1933

  • Publica a peça Alfama que é levada à cena em Lisboa.
  • Publica António: novela dramática.

1934

  • Regista-se como sócio da sociedade de escritores e Compositores Teatrais portugueses, com o n.º 259.
  • Publica O meu amor pequenino [contos].
  • Escreve a letra de “Canção das lavadeiras”, com música de Luiz Freitas Branco, para o fonofilme Gado Bravo, dirigido por António Lopes Ribeiro.
  • Publica Ciúme: canções.
  • Em agosto, no jornal Fradique, tem início a violenta polémica que opôs José Régio, defensor de Boto, e Tomás Ribeiro Colaço, diretor do jornal.

1935

  • O livro das crianças é traduzida para língua inglesa – The children's book – por Alice Lawrence Oram, embora seja publicado em Portugal. As ilustrações são de Carlos Botelho.
  • Publica Dar de beber a quem tem sede [contos].
  • Publica A verdade e nada mais [contos].
  • Morre o seu amigo, tradutor e editor Fernando Pessoa [1888-1935].
No café-restaurante Martinho da Arcada, em Lisboa,
com Fernando Pessoa, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes

1936

  • Publica Baionetas da morte [poesia].

1937

  • Licença ilimitada do cargo de aspirante do Quadro Administrativo de Angola. [rever!]
  • Em abril, é nomeado para o lugar de escriturário de 2.ª classe do Arquivo Geral de Registo Criminal e Policial, no Posto de Identidade do Porto. Mais tarde, é promovido a escriturário de 1.ª classe do mesmo quadro.
  • Muda-se para a Rua Tenente Ferreira Durão, n.º 56, 3.º andar, Lisboa.
R. Tenente Ferreira Durão, n.º 56, 3.º, Lisboa
Fotogr. de Francisco Lopes [Exposição]

1938

  • Colabora na Revista de Portugal , direção de Vitorino Nemésio, e nos jornais Diário de Notícias e Diário de Lisboa.
  • Publica A vida que te dei [poesia].
  • Publica Nove de Abril: teatro em três actos, peça que é levada à cena em Lisboa.
  • José Régio publica o ensaio António Botto e o amor.

1939

  • Publica Não é preciso mentir [contos para crianças].1940
  • Publica a novela Isto sucedeu assim...
  • Publica O barco voador [contos].
  • A Morgadinha de Valflor – opereta adaptada por António Boto a partir do drama homónimo de Pinheiro Chagas.

1941

  • Começa a colaborar no jornal Os Sports, onde publica poemas, contos para crianças, críticas e crónicas. 
  • Publica uma entrevista com a filha de Guerra Junqueiro, sob o título «Junqueiro na Intimidade – o que nos disse a filha do poeta» (Diário de Lisboa, 22.03.1941).
  • Publica As canções de António Botto – “nova edição” ou “edição definitiva” – 1.º vol. das Obras Completas, s.l.: s.n., 1941.
  • Publica O Anjo da Guarda: comédia em 3 actos: adaptação: primeira representação no Teatro Variedades de Lisboa em 15 de Março de 1941, pela companhia António Silva – Irene Isidro – Ribeirinho.

1942

  • É demitido do cargo de escriturário de 1.ª classe do Arquivo Geral de Identificação por, diz-se, ter desacatado uma ordem verbal, ter dirigido galanteios a um seu colega e por fazer versos e recitá-los durante as horas de serviço da repartição; sem direito a qualquer pensão» [Despacho, Diário do Governo, II Série, n.º 262, 5795, Lisboa, 9.11.1941].
  • João Villaret interpreta o poema de Boto «Tríptico da Raça», no Teatro Avenida, com cenários e figurinos do poeta. 
  • Publica Os contos de António Botto: para crianças e para adultos.
  • Publica Aqui ninguém nos ouve [diálogo representado].
  • Publica OBRAS COMPLETAS – 2.º volume.

1943

  • Redige o prefácio de Aventuras do anão gigante, de Salomé de Almeida.
  • Publica A guerra dos macacos [contos para crianças].

1944

  • Seleciona e publica Histórias do Arco da Velha: antologia de contos infantis, com ilustrações de José Correia.
  • Publica O Livro do povo [poesia].
  • Publica a Antologia de poemas portugueses modernos. – Pessoa e Boto elaboraram em conjunto esta antologia, tendo aquele falecido antes de concluírem a obra. 


  • Publica Se, de Rudyard Kipling en versos portugueses / de António Botto
  • É contratado pelo Rádio Clube Português para dirigir as emissões infantis.

1945

  • Publica Ele que diga se eu minto [prosa poética?].
  • Publica As comédias de António Botto – 3.º vol. das “OBRAS COMPLETAS” e 1.º de Teatro.

1947

  • Prefacia Rumos sem rumos: poemas, de Ada Júdice.
  • Publica Ódio e amor: poemas.
  • Decide ir viver para o Brasil. Para juntar dinheiro para a viagem organizou, em maio desse ano, recitais de poesia em Lisboa e no Porto, com grande êxito. No recital de homenagem no S. Luís, em Lisboa, a 7.05.1947, colaboraram intelectuais e artistas, entre os quais Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro (como conferencista), João Villaret e Palmira Bastos.
[foto do Brasil, da época / postal]

  • No dia do seu aniversário, Boto parte finalmente para o Brasil. Acompanha-o uma senhora e amiga íntima, Carminda Silva Rodrigues.
  • Vive em São Paulo (até 1951), na Rua 24 de Maio, n.º 275, apartamento 31.
  • Colabora na página literária do jornal O Estado de São Paulo.

1948

  • Continua a colaborar na imprensa portuguesa e publica também no jornal Folha do Norte, de Belém do Pará.
  • Publica Songs / by António Botto, translated from the Portuguese by Fernando Pessoa.

1949

  • Publica Regresso: novelas inéditas.
  • É contratado pela Rádio Bandeirantes, de São Paulo, para colaborador na rubrica “Selecta Internacional”, transmitida aos domingos na abertura do programa Portugal Canta (28.08.1949 a 1.01.1950). 
  • É emitido o programa radiofónico da autoria de Boto “A voz do espaço”, comemorativo da implantação da República Portuguesa, na Estação Rádio Cultura (05.10.1949).

1950

  • Profere diversas récitas de poesia em São Paulo.
  • Mantém o programa “Almas e Povos” na Rádio Difusão Tupi, de São Paulo, às 2.as, 4.as e 6.as feiras (de 31.07.1950 a 31.01.1951)

1951

  • Récita de poesia, na Casa dos Poveiros, no aniversário de Eça de Queirós.
  • Vai viver para o Rio de Janeiro, onde convive com outros intelectuais.

1952

  • Organiza um festival de poesia no Teatro Municipal João Caetano, de Niterói.
  • Começa a colaborar no Diário Carioca.

1954

  • Pede para ser repatriado. Negado o pedido e sem meios com que custear a viagem, desiste do regresso a Portugal.
  • Promove novas edições dos seus livros; contacta com as editoras Bertrand e Ática.
  • Envia os sonetos «Camões» para publicação no Diário Popular.

1955

  • Publica Fátima: poema do mundo, impresso na tipografia do Jornal do Brasil. O livro foi editado no âmbito do XXVI Congresso Eucarístico.
  • Publica o volume Teatro, que inclui os textos: Flor do mal ; Nove de Abril ; Aqui que ninguém nos ouve; Alfama, nas “Obras completas de António Botto”. – Assina: António Tomás Boto.

1956

  • Adoece gravemente e é internado no quarto 18 do Hospital da Santa Casa, no Rio de Janeiro.
  • As canções de António Boto – “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956.

1959

  • O Poeta concede a sua última entrevista, publicada no Século Ilustrado (21.03.1959) sob o título «A verdade sobre António Botto».
  • A 4 de março, ao atravessar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, é atropelado por um automóvel, acidente que o fere quase mortalmente.
  • É internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, do Rio de Janeiro.
  • A 16 de março, pelas 17 horas, falece no hospital, assistido pela dedicada amiga Carminda. Tem quase 62 anos.
  • Em junho, é publicada a obra póstuma Ainda não se escreveu.

1965

  • Os restos mortais de António Boto são trasladados para Lisboa, em outubro, ficando à guarda do Instituto de Alta Cultura.

1966

Ossário do Poeta no cemitério do Alto de S. João 
  • Em novembro, após impasses burocráticos, os seus restos mortais podem finalmente repousar na sua última morada: o ossário n.º 1952 [gavetão municipal], na Rua 17, do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

1989

  • O seu espólio, enviado do Brasil pela sua “viúva” a um parente, foi doado à Biblioteca Nacional de Portugal, em 1989, onde pode ser estudado.



«VERSOS», de António Boto


«Versos», in revista "Contemporânea", n.º 1, 1922, p. 37.

13/12/2013

«Cantiga de embalar», de antónio Boto, por Mário Viegas


Publicado no Youtube, 06.11.2009

«Cantiga de embalar», de António Botto
dita por Mário Viegas

 in Poemas de Bibe, por Mário Viegas e Manuela de Freitas, 1990

«O mais importante na vida», de António Botto, dito por por Manuela de Freitas [1]

Publicado no Youtube, a 07/11/2009


«O mais importante na vida», in Canções / Songs
Trad. para língua inglesa de Fernando Pessoa


Dito por Manuela de Freitas

in Poemas de Bibe - Manuela Freitas e Mário Viegas, 1990

Música: Bernardo Sassetti (1970-2012), "Inocência - Movimento I"

POEMA:

O mais importante na vida
É ser-se criador -- criar beleza.
Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

«Página de Folclore», de António Boto - por João Villaret

Publicado no Youtube, 13.04.2012


«Página de Folclore»
de António Botto
por João Villaret