30/12/2013

PALAVRAS DUM FAISÃO - de António Boto

Narciso e «um azul cor de céu quando há sol»

Perdi-me d'amor!

É uma pomba muito azul —-
Um azul cor de céu quando há sol;
E hei de fugir com ela
Por causa dum rouxinol ciumento
Que me apoquenta
Dizendo
Melodias de ironia penetrante.
Iremos
A esse país nevoento,
Lendário, belo, distante,
Lá onde a Lua se esconde
Em névoas que eternamente lá pairam...

Ó névoa, porque envolveis
O país de Lord Byron?

Às vezes
Penso num pajem que me teve
E num rei que me beijava
Quando a Rainha dormia...
Mas quando lho disseram
Bateu-me tanto
Que eu em longos ais morria...

Não ouvem?...

Lá continua
De novo
O rouxinol a dizer...
Ai, mas, se houver
Uma pequena verdade
No que ele insinua
—- É lume caindo numa ferida —-
Jamais aqui voltarei:

Num lago da velha Escócia
Darei fim à minha vida.
  
António Boto



Versão in ["Aves de um parque real" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 235-236.


«Ó meu tesoiro!, por quem» / «Oh, my love, for whom my heart», de António Boto






Versão em língua portuguesa, in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 28.

Versão em língua inglesa, in The Songs of António Botto translated by Fernando Pessoa, ed. e introd. de Josiah Blackmore, London/Minneapolis: Univ. of Minnesota Press, 2010, p. 34.


28/12/2013

«Não. Beijemo-nos, apenas», poema de António Boto

Doctor Who - The kiss by maXKennedy

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda —
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me — sou outro...

A névoa da noite cai. 
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos — És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: — não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!
— Que mais precisamos nós?



António Boto



Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 
11-12.

27/12/2013

«O mais importante na vida», poema de António Boto


A criação de Adão - fresco pintado por Michelangelo
Teto da Capela Sistina, no Vaticano. Fotogr. de Christophe EYQUEM

O mais importante na vida
É ser-se criador, criar beleza.

Para isso,

É necessário adivinhá-la
Aonde os nossos olhos não a possam ver.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim. O mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados,
Imitando a fé pela mão do amor.



António Boto







Texto publicado, originalmente,  in Curiosidades estéticas... (1924).
Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 45-46.
Nota: No verso 8.º, utilizei uma variante, a da versão de 1941 [Canções – 1.º vol. das OC].

26/12/2013

[Homem que vens de humanas desventuras] - soneto de António Boto
























Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida, te enamoras,
Que tudo sabes mas que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras.

Que te ajoelhas pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras
E na ambição das causas mais impuras
És grande simplesmente quando choras.

Que prometes cumprir para esquecer,
E trocando a virtude no pecado,
Ficas brutal se ele não der prazer.

Arquiteto do crime e da ilusão,
Ridículo palhaço articulado,
Eu sou teu companheiro, teu irmão.


António Boto


Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 313.

21/12/2013

Teses académicas sobre António Boto

A

  • ANDRADE, Rosevan Marcolino de (2012, maio), Lirismo e homoerotismo n’As Canções de António Botto, tese de  Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade, Campina Grande, Univ. Estadual da Paraíba: Dep. de Letras e Artes.

F

  • FERNANDES, Maria da Conceição [Azevedo dos Santos] (1994), António Botto, vida e obra: novas contribuições [Texto policopiado], tese mestr. Lit. Comparadas Portuguesa e Francesa, 2 vols., Lisboa: UNL, 1994. – publicado com o título António Botto – um poeta de Lisboa: vida e obra: novas contribuições, Lisboa: Editorial Minerva, [abril de] 1998.

M

  • MARTINS, Ricardo Marques (2013), Artimanhas de Eros: aspectos do erotismo e do esteticismo na poética de António Botto, tese de Doutorado em Estudos Literários, Araraquara, Univ. Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho.
  • MATEUS, Margarida Maria Alves Nabais (1999), Relações literárias entre Fernando Pessoa e António Botto [Texto policopiado], dissertação de mestrado, Lisboa: s.n.
  • MATEUS, Margarida Maria Alves Nabais (2008), Configurações semânticas na construção do discurso de António Botto. Do(s) conto(s) à cultura e à(s) pedagogia(s) [Texto policopiado], tese de Doutoramento na área das Letras, Covilhã: Univ. da Beira Interior.

V

  • VIZCAÍNO, Fernanda Maria Cardoso Pereira (2012, outubro), Canções / Songs: Fernando Pessoa traduz António Botto, dissertação de Mestrado em Tradução e Interpretação Especializada, Porto: Instituto Politécnico do Porto: Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto.


JC Canoa
Atualizado a 22.12.2013

Ver para além de convenções - Testemunho de Jorge de Sena

Jorge de Sena (1919-1978)








“[…] Por uma tolerância muito análoga à de Camões (e contraditoriamente muito semelhante à de Pessoa) , resultante de ver-se o amor e a expressão dele como suprema dignidade, ainda que esse amor não seja senão vida sexual ou porque o é – e isto ainda é revolucionário nos quatro últimos séculos de literatura portuguesa –, Régio, como Pessoa antes dele, defendeu António Botto (cujos atrevimentos já outros escritores haviam protegido). Mas não o defendeu, como Pessoa fizera, em termos esteticistas, invocando o direito de admirar-se a beleza masculina ou de expressar-se o que as literaturas clássicas já haviam dito, nos termos do Pessoa – Álvaro de Campos (ninguém tem que ver com a vida de cada um); procurou ver nele, para lá de efeminamentos chocantes, e independentemente dos sexos envolvidos, uma expressão da dialética dos sentimentos e do desejo sexual, como este se contenta ou se recusa, como se acende e se esvai – e sob este especto, bem mais do que Régio brilhantemente viu ao falar do amor em Botto, este é realmente, em raros poemas excecionais, de uma lucidez que raros heterossexuais atingiram na poesia portuguesa. O cinismo esteticista do exibicionismo de Botto permitiu a este ver para além de convenções a que não estava preso (e a que descaradamente prestou homenagem quando achou que lhe convinha – mas nisso não terá ido em verso mais longe do que outros na vida privada), e que a promoção puritana e pequeno-burguesa reinstaurou, em grande parte, na vida portuguesa das últimas décadas.”


in: SENA, Jorge de (1974, maio), «O heterónimo Fernando Pessoa e os Poemas Ingleses que publicou», reprod. in Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 93-4.