01/01/2014

«Andava a lua nos céus», poema de António Boto

"Lisboa anoitece, numa bela noite de luar"
Fotogr. de Graciete Nobre, em Terra Imunda.


Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas.

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze.

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.

Ele olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente,
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para Ele,
E, encostado ao meu ombro,
Falou-me dum pajem loiro
Que morrera de saudade,
Á beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora a lua fugia
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
— Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir, —
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho..., até cair.

António Boto



Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 14-15.

«A noite», poema de António Boto

"Il Giorno e la Notte" by Giampaolo Ghisetti


A noite
— Como ela vinha!
Morna, suave,
Muito branca, aos tropeções,
Já sobre as coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.

E via —
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra,
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro, — tristeza!...
E eu, devagar morrendo…

O teu rosto moreninho,
— Tão formoso!
Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
— Era dia!

E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!

António Boto




Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 12-13.

30/12/2013

PALAVRAS DUM FAISÃO - de António Boto

Narciso e «um azul cor de céu quando há sol»

Perdi-me d'amor!

É uma pomba muito azul —-
Um azul cor de céu quando há sol;
E hei de fugir com ela
Por causa dum rouxinol ciumento
Que me apoquenta
Dizendo
Melodias de ironia penetrante.
Iremos
A esse país nevoento,
Lendário, belo, distante,
Lá onde a Lua se esconde
Em névoas que eternamente lá pairam...

Ó névoa, porque envolveis
O país de Lord Byron?

Às vezes
Penso num pajem que me teve
E num rei que me beijava
Quando a Rainha dormia...
Mas quando lho disseram
Bateu-me tanto
Que eu em longos ais morria...

Não ouvem?...

Lá continua
De novo
O rouxinol a dizer...
Ai, mas, se houver
Uma pequena verdade
No que ele insinua
—- É lume caindo numa ferida —-
Jamais aqui voltarei:

Num lago da velha Escócia
Darei fim à minha vida.
  
António Boto



Versão in ["Aves de um parque real" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 235-236.


«Ó meu tesoiro!, por quem» / «Oh, my love, for whom my heart», de António Boto






Versão em língua portuguesa, in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 28.

Versão em língua inglesa, in The Songs of António Botto translated by Fernando Pessoa, ed. e introd. de Josiah Blackmore, London/Minneapolis: Univ. of Minnesota Press, 2010, p. 34.


28/12/2013

«Não. Beijemo-nos, apenas», poema de António Boto

Doctor Who - The kiss by maXKennedy

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda —
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me — sou outro...

A névoa da noite cai. 
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos — És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: — não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!
— Que mais precisamos nós?



António Boto



Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 
11-12.

27/12/2013

«O mais importante na vida», poema de António Boto


A criação de Adão - fresco pintado por Michelangelo
Teto da Capela Sistina, no Vaticano. Fotogr. de Christophe EYQUEM

O mais importante na vida
É ser-se criador, criar beleza.

Para isso,

É necessário adivinhá-la
Aonde os nossos olhos não a possam ver.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim. O mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados,
Imitando a fé pela mão do amor.



António Boto







Texto publicado, originalmente,  in Curiosidades estéticas... (1924).
Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 45-46.
Nota: No verso 8.º, utilizei uma variante, a da versão de 1941 [Canções – 1.º vol. das OC].

26/12/2013

[Homem que vens de humanas desventuras] - soneto de António Boto
























Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida, te enamoras,
Que tudo sabes mas que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras.

Que te ajoelhas pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras
E na ambição das causas mais impuras
És grande simplesmente quando choras.

Que prometes cumprir para esquecer,
E trocando a virtude no pecado,
Ficas brutal se ele não der prazer.

Arquiteto do crime e da ilusão,
Ridículo palhaço articulado,
Eu sou teu companheiro, teu irmão.


António Boto


Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 313.