04/01/2014
02/01/2014
"Se fosses luz serias a mais bela» - do livro TODA A VIDA de António Boto
Versão completa do poema:
Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo, — a luz do dia.
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração da minha fantasia.
Se fosses flor
Serias o perfume, concentrado e divino,
Que perturba o sentir de quem nasce para amar.
Se desejo o teu corpo
Para nele poder todas as noites pernoitar
É porque tenho, dentro de mim, —
A sede e a vibração de te abraçar,
Sabendo, de antemão, que vais gostar
De eu o saber atravessar, nessa nudez
Em que podemos, ambos, tudo sentir
Sem nos cansar, —
E adormecer,
E repetir.
Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma.
Mas de tudo que possas, ainda, ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma.
Versão in ["Toda a vida" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 319.
01/01/2014
«Andava a lua nos céus», poema de António Boto
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas.
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze.
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de
vinho.
Ele olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente,
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para Ele,
E, encostado ao meu ombro,
Falou-me dum pajem loiro
Que morrera de saudade,
Á beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora a lua fugia
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
— Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir, —
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho..., até cair.
António Boto
Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 14-15.
«A noite», poema de António Boto
— Como ela
vinha!
Morna, suave,
Muito branca,
aos tropeções,
Já sobre as
coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.
E via —
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas
rasgando
Os bordões de
uma guitarra,
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro, — tristeza!...
E eu,
devagar morrendo…
O teu rosto moreninho,
— Tão formoso!
Mostrava-se
mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.
Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
— Era dia!
E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!
Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 12-13.
30/12/2013
PALAVRAS DUM FAISÃO - de António Boto
Perdi-me d'amor!
É uma pomba muito azul —-
Um azul cor de céu quando há sol;
E hei de fugir com ela
Por causa dum rouxinol ciumento
Que me apoquenta
Dizendo
Melodias de ironia penetrante.
Iremos
A esse país nevoento,
Lendário, belo, distante,
Lá onde a Lua se esconde
Em névoas que eternamente lá pairam...
Ó névoa, porque envolveis
O país de Lord Byron?
Às vezes
Penso num pajem que me teve
E num rei que me beijava
Quando a Rainha dormia...
Mas quando lho disseram
Bateu-me tanto
Que eu em longos ais morria...
Não ouvem?...
Lá continua
De novo
O rouxinol a dizer...
Ai, mas, se houver
Uma pequena verdade
No que ele insinua
—- É lume caindo numa ferida —-
Jamais aqui voltarei:
Num lago da velha Escócia
Darei fim à minha vida.
Versão in ["Aves de um parque real" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 235-236.
«Ó meu tesoiro!, por quem» / «Oh, my love, for whom my heart», de António Boto
Versão em língua portuguesa, in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 28.
Versão em língua inglesa, in The Songs of António Botto translated by Fernando Pessoa, ed. e introd. de Josiah Blackmore, London/Minneapolis: Univ. of Minnesota Press, 2010, p. 34.
28/12/2013
«Não. Beijemo-nos, apenas», poema de António Boto
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| Doctor Who - The kiss by maXKennedy |
Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.
Guarda —
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.
O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me — sou outro...
A névoa da noite cai. Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos — És lindo!
A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!
Dá-me o teu braço: — não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!
— Que mais precisamos nós?
António Boto
Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 11-12.
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