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"Lisboa anoitece, numa bela noite de luar" Fotogr. de Graciete Nobre, em Terra Imunda. |
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas.
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze.
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de
vinho.
Ele olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente,
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para Ele,
E, encostado ao meu ombro,
Falou-me dum pajem loiro
Que morrera de saudade,
Á beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora a lua fugia
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
— Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir, —
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho..., até cair.
António Boto
Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 14-15.