09/01/2014

«Busco a beleza na forma», disse Anónio Boto


                         — Busco a beleza na forma;
                         E jamais
                         Na beleza da intenção
                         A beleza que perdura.


                         Só porque o bronze é de boa qualidade
                         Não se deve
                         Consagrar uma escultura.

António Boto




Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 73.

07/01/2014

«Afirmam que a vida é breve» - uma pequena "escultura" de António Boto

Coração de filigrana - imagem em Feitoria

Afirmam que a vida é breve,
Engano, — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
                                     António Boto


Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 85.

«Sê jovem», poema de António Boto

O Grego (2003), por Juliette Aristides

Sê jovem,
Jovem, apenas.

Não faças literatura
Nem ponhas o melancólico aspeto
De quem sabe
E se debruça
Nos abismos
Desta pobre humanidade
Tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
Que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
— E sê jovem!,
Mas não queiras ser mais nada
Quando estás ao pé de mim.

António Boto



Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 83-84

06/01/2014

«Não me peças mais canções», de António Boto

Jovem lendo à luz das velas
por Matthias Stomer


Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo....
— Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

António Boto



Versão do poema in [“As tristes cantigas de amor” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 260.

04/01/2014

«Quem é que abraça o meu corpo», de António Boto

Ilustração de Júlio Pomar
para um conto de O livro das mil e uma noites
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Quem é que abraça o meu corpo

Na penumbra do meu leito?

Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte,
Docemente, ao meu ouvido?
— És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

António Boto



Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 18.

Cit(u)ações - Elizabeth Barret Browning


02/01/2014

"Se fosses luz serias a mais bela» - do livro TODA A VIDA de António Boto



Versão completa do poema:


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo, — a luz do dia.
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração da minha fantasia.
Se fosses flor
Serias o perfume, concentrado e divino,
Que perturba o sentir de quem nasce para amar.
Se desejo o teu corpo
Para nele poder todas as noites pernoitar
É porque tenho, dentro de mim, —
A sede e a vibração de te abraçar,
Sabendo, de antemão, que vais gostar
De eu o saber atravessar, nessa nudez
Em que podemos, ambos, tudo sentir
Sem nos cansar, —
E adormecer,
E repetir.

Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma.

Mas de tudo que possas, ainda, ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma.


Versão in ["Toda a vida" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 319.