16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.

10/01/2014

«De Saudades vou morrendo», de António Boto

Cais das Colunas, por Eduardo Salavisa


De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d'um louco?
— Enchei-vos d'água, meus olhos,
Enchei-vos d'água, chorai!

António Boto




Versão do poema: «XV» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

09/01/2014

«Busco a beleza na forma», disse Anónio Boto


                         — Busco a beleza na forma;
                         E jamais
                         Na beleza da intenção
                         A beleza que perdura.


                         Só porque o bronze é de boa qualidade
                         Não se deve
                         Consagrar uma escultura.

António Boto




Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 73.

07/01/2014

«Afirmam que a vida é breve» - uma pequena "escultura" de António Boto

Coração de filigrana - imagem em Feitoria

Afirmam que a vida é breve,
Engano, — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
                                     António Boto


Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 85.

«Sê jovem», poema de António Boto

O Grego (2003), por Juliette Aristides

Sê jovem,
Jovem, apenas.

Não faças literatura
Nem ponhas o melancólico aspeto
De quem sabe
E se debruça
Nos abismos
Desta pobre humanidade
Tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
Que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
— E sê jovem!,
Mas não queiras ser mais nada
Quando estás ao pé de mim.

António Boto



Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 83-84

06/01/2014

«Não me peças mais canções», de António Boto

Jovem lendo à luz das velas
por Matthias Stomer


Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo....
— Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

António Boto



Versão do poema in [“As tristes cantigas de amor” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 260.

04/01/2014

«Quem é que abraça o meu corpo», de António Boto

Ilustração de Júlio Pomar
para um conto de O livro das mil e uma noites
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Quem é que abraça o meu corpo

Na penumbra do meu leito?

Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte,
Docemente, ao meu ouvido?
— És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

António Boto



Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 18.