25/01/2014

«Por uma noite de Outono», um poema de António Boto

MM em The Last Sitting, do fotógrafo Bert Stern,1962

Por uma noite de Outono
Lá nessa nave sombria,
Hei de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
— Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.

António Boto



Versão do poema: «II» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.

10/01/2014

«De Saudades vou morrendo», de António Boto

Cais das Colunas, por Eduardo Salavisa


De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d'um louco?
— Enchei-vos d'água, meus olhos,
Enchei-vos d'água, chorai!

António Boto




Versão do poema: «XV» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

09/01/2014

«Busco a beleza na forma», disse Anónio Boto


                         — Busco a beleza na forma;
                         E jamais
                         Na beleza da intenção
                         A beleza que perdura.


                         Só porque o bronze é de boa qualidade
                         Não se deve
                         Consagrar uma escultura.

António Boto




Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 73.

07/01/2014

«Afirmam que a vida é breve» - uma pequena "escultura" de António Boto

Coração de filigrana - imagem em Feitoria

Afirmam que a vida é breve,
Engano, — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
                                     António Boto


Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 85.

«Sê jovem», poema de António Boto

O Grego (2003), por Juliette Aristides

Sê jovem,
Jovem, apenas.

Não faças literatura
Nem ponhas o melancólico aspeto
De quem sabe
E se debruça
Nos abismos
Desta pobre humanidade
Tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
Que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
— E sê jovem!,
Mas não queiras ser mais nada
Quando estás ao pé de mim.

António Boto



Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 83-84

06/01/2014

«Não me peças mais canções», de António Boto

Jovem lendo à luz das velas
por Matthias Stomer


Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo....
— Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

António Boto



Versão do poema in [“As tristes cantigas de amor” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 260.