25/01/2014

«Bendito sejas», de António Boto

Dioniso conduzindo uma pantera - mosaico, em Pella

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Boto



Versão in [livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 15-16.

«Sou como as tardes de Outono» de António Boto

O olhar de Antonio Banderas


Sou como as tardes de Outono,
— Beleza cheia de morte!
Tem cuidado, meu amante,
Meu constante bem-amado;
Não olhes tanto os meus olhos,
Não beijes tanto o meu rosto…
Sou como as tardes de Outono,
— Cheias de sol-posto.


António Boto




Versão única [não conheço outras edições] do poema em: «IV» de Canções do sul, Lisboa: s.n., 1920.

«Por uma noite de Outono», um poema de António Boto

MM em The Last Sitting, do fotógrafo Bert Stern,1962

Por uma noite de Outono
Lá nessa nave sombria,
Hei de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
— Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.

António Boto



Versão do poema: «II» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.

10/01/2014

«De Saudades vou morrendo», de António Boto

Cais das Colunas, por Eduardo Salavisa


De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d'um louco?
— Enchei-vos d'água, meus olhos,
Enchei-vos d'água, chorai!

António Boto




Versão do poema: «XV» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

09/01/2014

«Busco a beleza na forma», disse Anónio Boto


                         — Busco a beleza na forma;
                         E jamais
                         Na beleza da intenção
                         A beleza que perdura.


                         Só porque o bronze é de boa qualidade
                         Não se deve
                         Consagrar uma escultura.

António Boto




Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 73.

07/01/2014

«Afirmam que a vida é breve» - uma pequena "escultura" de António Boto

Coração de filigrana - imagem em Feitoria

Afirmam que a vida é breve,
Engano, — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
                                     António Boto


Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 85.