14/02/2014

«Quanto, quanto me queres? — perguntaste» - poema de amor

Miranda, The Tempest, 1916

Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Olhando para mim mas distraída;
E quando nos meus olhos te encontraste,
Eu vi nos teus a luz da minha vida.
Nas tuas mãos, as minhas, apertaste.
Olhando para mim como vencida,
«...quanto, quanto...» — de novo murmuraste
E a tua boca deu-se-me rendida!
Os nossos beijos longos e ansiosos,
Trocavam-se frementes! — Ah! ninguém
Sabe beijar melhor que os amorosos!
Quanto te quero?! — Eu posso lá dizer!...
— Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.


António Boto



Versão do poema: «VI» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

Foi numa tarde de Julho - canção de António Boto



Foi numa tarde de Julho.

Conversávamos a medo,
— Receosos de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
— E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.
E, aos beijos, ébrios, tombámos;
— Cheios d'amor e de vinho!

«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»


António Boto



Versão do poema: «V» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

26/01/2014

«Anda, vem... porque te negas», poema de A Boto, fotografia de M Giliberti

Imagem de Michel Giliberti
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Anda, vem... porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Por que te calas,
Por que esmoreces
Boca vermelha, — rosa de lume?

Se a luz do dia

Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos
num infinito beijo.

Dá-me o inefável gozo

De contigo adormecer devagarinho,
Sentindo o aroma e o calor
Da tua carne, ó meu amor.

E ouve, mancebo alado:

— Entrega-te, sê contente.
Nem todo o prazer tem vileza
Ou tem pecado.

Anda, vem. Dá-me esse teu e meu corpo,
Em troca destes desejos.
Tenho saudades da vida
Sem o triste preconceito
Que a torna sempre fingida.



António Boto




Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 26-27.

25/01/2014

«Bendito sejas», de António Boto

Dioniso conduzindo uma pantera - mosaico, em Pella

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Boto



Versão in [livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 15-16.

«Sou como as tardes de Outono» de António Boto

O olhar de Antonio Banderas


Sou como as tardes de Outono,
— Beleza cheia de morte!
Tem cuidado, meu amante,
Meu constante bem-amado;
Não olhes tanto os meus olhos,
Não beijes tanto o meu rosto…
Sou como as tardes de Outono,
— Cheias de sol-posto.


António Boto




Versão única [não conheço outras edições] do poema em: «IV» de Canções do sul, Lisboa: s.n., 1920.

«Por uma noite de Outono», um poema de António Boto

MM em The Last Sitting, do fotógrafo Bert Stern,1962

Por uma noite de Outono
Lá nessa nave sombria,
Hei de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
— Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.

António Boto



Versão do poema: «II» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.