14/03/2014

Ah!, Quanto me arrependo / de ter contado nessa carta / que te mandei... - diz Boto





Ah!, Quanto me arrependo
De ter contado nessa carta
Que te mandei
As causas do meu apego
A tudo o que te pertence!

Depois de a mandar, chorei!

Parece que me roubaram
Qualquer coisa que eu trazia
Aqui, dentro do meu peito,
Escondida lá no fundo!

Não deveríamos, nunca!,
Traduzir em palavras
O nosso amor.

Só o silêncio das almas
Impõe a verdade e a vida
E as dá num plano maior.

António Boto




Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 36.


ENVOLVE-ME AMOROSAMENTE


"les cordes rouges", por Michel Giliberti

conheça o seu trabalho no Facebook


Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha!

Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
— Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...

António Boto



Versão publicada na parte Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 32.


14/02/2014

«Quanto, quanto me queres? — perguntaste» - poema de amor

Miranda, The Tempest, 1916

Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Olhando para mim mas distraída;
E quando nos meus olhos te encontraste,
Eu vi nos teus a luz da minha vida.
Nas tuas mãos, as minhas, apertaste.
Olhando para mim como vencida,
«...quanto, quanto...» — de novo murmuraste
E a tua boca deu-se-me rendida!
Os nossos beijos longos e ansiosos,
Trocavam-se frementes! — Ah! ninguém
Sabe beijar melhor que os amorosos!
Quanto te quero?! — Eu posso lá dizer!...
— Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.


António Boto



Versão do poema: «VI» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

Foi numa tarde de Julho - canção de António Boto



Foi numa tarde de Julho.

Conversávamos a medo,
— Receosos de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
— E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.
E, aos beijos, ébrios, tombámos;
— Cheios d'amor e de vinho!

«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»


António Boto



Versão do poema: «V» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

26/01/2014

«Anda, vem... porque te negas», poema de A Boto, fotografia de M Giliberti

Imagem de Michel Giliberti
conheça o seu trabalho no Facebook

Anda, vem... porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Por que te calas,
Por que esmoreces
Boca vermelha, — rosa de lume?

Se a luz do dia

Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos
num infinito beijo.

Dá-me o inefável gozo

De contigo adormecer devagarinho,
Sentindo o aroma e o calor
Da tua carne, ó meu amor.

E ouve, mancebo alado:

— Entrega-te, sê contente.
Nem todo o prazer tem vileza
Ou tem pecado.

Anda, vem. Dá-me esse teu e meu corpo,
Em troca destes desejos.
Tenho saudades da vida
Sem o triste preconceito
Que a torna sempre fingida.



António Boto




Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 26-27.

25/01/2014

«Bendito sejas», de António Boto

Dioniso conduzindo uma pantera - mosaico, em Pella

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Boto



Versão in [livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 15-16.

«Sou como as tardes de Outono» de António Boto

O olhar de Antonio Banderas


Sou como as tardes de Outono,
— Beleza cheia de morte!
Tem cuidado, meu amante,
Meu constante bem-amado;
Não olhes tanto os meus olhos,
Não beijes tanto o meu rosto…
Sou como as tardes de Outono,
— Cheias de sol-posto.


António Boto




Versão única [não conheço outras edições] do poema em: «IV» de Canções do sul, Lisboa: s.n., 1920.