15/03/2014

"Linda e loira", uma bailarina quase divina cantada por António Boto

Maria Kochetkova em "Cinderella" de Wheeldon
Ballet de San Francisco
Fotografia por Erik Tomasson



Linda e loira,
Como a Lua quando nasce
Em tardes de julho.

A sua boca
Pequenina e recortada,
Era vibrante e discreta
Como a flor da romãzeira.
E os seus olhos, muito vagos,
Como a verem além-mundo,
Assemelhavam dois vales
Com dois lagos de cristal azul ao fundo.

Ao longe, num mar de sangue,
Morre o sol.
E uma aragem muito fria
Faz ondular as palmeiras.

Com damasco precioso
Foi coberto o amplo piso
Guarnecido por mosaicos
E vasos d´oiro lavrado.

Fizeram-se juramentos!
E ela, sorrindo, orgulhosa,
Ergueu-se quase divina!

Soaram palmas, exclamações, e delírios!
— Já ninguém pediu mais vinho!

Baila, baila, minha filha!

— Sim; bailarei como nunca!

E o corpete,
Na dança,
Descai-lhe suavemente
Deixando ver os dois seios,
Pequeninos, volumosos,
Como dois frutos doirados.

Como tu bailas, amor!

Soltam-se os véus; e em redor
Da sua graça,
Da sua carne delgada,
Parecem névoas de seda.

Um grande rubi, soberbo,
Resplandece entre os seus seios
Como se fosse uma estrela!...

Está quase nua!
Mas, continua bailando...

No rosto do rei Tetrarca
Há lágrimas e tristeza.

Agora, baila, pisando
Os brocados que envolveram
O seu corpo de Princesa...

Sobre o seu sexo
brilham duas esmeraldas
De raro fulgor.

E a voz lenta
da bailadeira franzina,
Soa mais lenta, mais longa,
Mais sensual e mais quente:
— Profeta dos olhos negros,
Hás de ser meu esta noite
Antes de a Lua aparecer
Branca, redonda, imaculada
Para não ter que lhe dizer:

O que vieste cá fazer
Se não foste convidada?

António Boto


Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 36-39.



14/03/2014

Ah!, Quanto me arrependo / de ter contado nessa carta / que te mandei... - diz Boto





Ah!, Quanto me arrependo
De ter contado nessa carta
Que te mandei
As causas do meu apego
A tudo o que te pertence!

Depois de a mandar, chorei!

Parece que me roubaram
Qualquer coisa que eu trazia
Aqui, dentro do meu peito,
Escondida lá no fundo!

Não deveríamos, nunca!,
Traduzir em palavras
O nosso amor.

Só o silêncio das almas
Impõe a verdade e a vida
E as dá num plano maior.

António Boto




Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 36.


ENVOLVE-ME AMOROSAMENTE


"les cordes rouges", por Michel Giliberti

conheça o seu trabalho no Facebook


Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha!

Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
— Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...

António Boto



Versão publicada na parte Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 32.


14/02/2014

«Quanto, quanto me queres? — perguntaste» - poema de amor

Miranda, The Tempest, 1916

Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Olhando para mim mas distraída;
E quando nos meus olhos te encontraste,
Eu vi nos teus a luz da minha vida.
Nas tuas mãos, as minhas, apertaste.
Olhando para mim como vencida,
«...quanto, quanto...» — de novo murmuraste
E a tua boca deu-se-me rendida!
Os nossos beijos longos e ansiosos,
Trocavam-se frementes! — Ah! ninguém
Sabe beijar melhor que os amorosos!
Quanto te quero?! — Eu posso lá dizer!...
— Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.


António Boto



Versão do poema: «VI» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

Foi numa tarde de Julho - canção de António Boto



Foi numa tarde de Julho.

Conversávamos a medo,
— Receosos de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
— E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.
E, aos beijos, ébrios, tombámos;
— Cheios d'amor e de vinho!

«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»


António Boto



Versão do poema: «V» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

26/01/2014

«Anda, vem... porque te negas», poema de A Boto, fotografia de M Giliberti

Imagem de Michel Giliberti
conheça o seu trabalho no Facebook

Anda, vem... porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Por que te calas,
Por que esmoreces
Boca vermelha, — rosa de lume?

Se a luz do dia

Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos
num infinito beijo.

Dá-me o inefável gozo

De contigo adormecer devagarinho,
Sentindo o aroma e o calor
Da tua carne, ó meu amor.

E ouve, mancebo alado:

— Entrega-te, sê contente.
Nem todo o prazer tem vileza
Ou tem pecado.

Anda, vem. Dá-me esse teu e meu corpo,
Em troca destes desejos.
Tenho saudades da vida
Sem o triste preconceito
Que a torna sempre fingida.



António Boto




Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 26-27.

25/01/2014

«Bendito sejas», de António Boto

Dioniso conduzindo uma pantera - mosaico, em Pella

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Boto



Versão in [livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 15-16.

«Sou como as tardes de Outono» de António Boto

O olhar de Antonio Banderas


Sou como as tardes de Outono,
— Beleza cheia de morte!
Tem cuidado, meu amante,
Meu constante bem-amado;
Não olhes tanto os meus olhos,
Não beijes tanto o meu rosto…
Sou como as tardes de Outono,
— Cheias de sol-posto.


António Boto




Versão única [não conheço outras edições] do poema em: «IV» de Canções do sul, Lisboa: s.n., 1920.

«Por uma noite de Outono», um poema de António Boto

MM em The Last Sitting, do fotógrafo Bert Stern,1962

Por uma noite de Outono
Lá nessa nave sombria,
Hei de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
— Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.

António Boto



Versão do poema: «II» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.

10/01/2014

«De Saudades vou morrendo», de António Boto

Cais das Colunas, por Eduardo Salavisa


De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d'um louco?
— Enchei-vos d'água, meus olhos,
Enchei-vos d'água, chorai!

António Boto




Versão do poema: «XV» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.

09/01/2014

«Busco a beleza na forma», disse Anónio Boto


                         — Busco a beleza na forma;
                         E jamais
                         Na beleza da intenção
                         A beleza que perdura.


                         Só porque o bronze é de boa qualidade
                         Não se deve
                         Consagrar uma escultura.

António Boto




Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 73.

07/01/2014

«Afirmam que a vida é breve» - uma pequena "escultura" de António Boto

Coração de filigrana - imagem em Feitoria

Afirmam que a vida é breve,
Engano, — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
                                     António Boto


Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 85.

«Sê jovem», poema de António Boto

O Grego (2003), por Juliette Aristides

Sê jovem,
Jovem, apenas.

Não faças literatura
Nem ponhas o melancólico aspeto
De quem sabe
E se debruça
Nos abismos
Desta pobre humanidade
Tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
Que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
— E sê jovem!,
Mas não queiras ser mais nada
Quando estás ao pé de mim.

António Boto



Versão do poema in [“Pequenas esculturas”” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 83-84

06/01/2014

«Não me peças mais canções», de António Boto

Jovem lendo à luz das velas
por Matthias Stomer


Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo....
— Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

António Boto



Versão do poema in [“As tristes cantigas de amor” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 260.

04/01/2014

«Quem é que abraça o meu corpo», de António Boto

Ilustração de Júlio Pomar
para um conto de O livro das mil e uma noites
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Quem é que abraça o meu corpo

Na penumbra do meu leito?

Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte,
Docemente, ao meu ouvido?
— És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

António Boto



Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 18.

Cit(u)ações - Elizabeth Barret Browning


02/01/2014

"Se fosses luz serias a mais bela» - do livro TODA A VIDA de António Boto



Versão completa do poema:


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo, — a luz do dia.
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração da minha fantasia.
Se fosses flor
Serias o perfume, concentrado e divino,
Que perturba o sentir de quem nasce para amar.
Se desejo o teu corpo
Para nele poder todas as noites pernoitar
É porque tenho, dentro de mim, —
A sede e a vibração de te abraçar,
Sabendo, de antemão, que vais gostar
De eu o saber atravessar, nessa nudez
Em que podemos, ambos, tudo sentir
Sem nos cansar, —
E adormecer,
E repetir.

Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma.

Mas de tudo que possas, ainda, ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma.


Versão in ["Toda a vida" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 319.

01/01/2014

«Andava a lua nos céus», poema de António Boto

"Lisboa anoitece, numa bela noite de luar"
Fotogr. de Graciete Nobre, em Terra Imunda.


Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas.

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze.

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.

Ele olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente,
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para Ele,
E, encostado ao meu ombro,
Falou-me dum pajem loiro
Que morrera de saudade,
Á beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora a lua fugia
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
— Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir, —
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho..., até cair.

António Boto



Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 14-15.

«A noite», poema de António Boto

"Il Giorno e la Notte" by Giampaolo Ghisetti


A noite
— Como ela vinha!
Morna, suave,
Muito branca, aos tropeções,
Já sobre as coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.

E via —
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra,
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro, — tristeza!...
E eu, devagar morrendo…

O teu rosto moreninho,
— Tão formoso!
Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
— Era dia!

E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!

António Boto




Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 12-13.