10/10/2014

A tudo quanto me pedes / Porque obedeço não sei - confessa António Boto

Fado (1945) - Cândido Costa Pinto


A tudo quanto me pedes
Porque obedeço não sei:
Vês? – quiseste que eu cantase…,
Pus-me a cantar, e chorei.


António Boto


Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" incluso in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 120.

Anda um ai na minha vida - diz-nos António Boto em "Dandismo"




Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.

Quem mo deu
— Partiu!...
Deixou-me na agrura
Interminável e fria
De ter de o guardar
Como único recurso
De poder viver ainda…

Anda um ai na minha vida,
Como lágrima que passa,
Que passa – mas que não finda.

Dizê-lo? – nada lucrava.
Guardá-lo? – morro a senti-lo.

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.


António Boto



Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" (1928?) inclusa in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 123-124.

Passatempo TORNEIO POÉTICO: Evocação de António Botto e Jorge de Sena", promovido em 2009 pela DGLAB



Em 2009, no âmbito do Dia Mundial da Poesia (21 de março), do Dia Mundial do Livro (23 de abril) e do Ano Europeu da Criatividade e Inovação, a Direcção‐Geral do Livro e das Bibliotecas lançou um passatempo, não só interessante por promover as competências de leitura e de escrita como também formativo, evocando dois poetas/escritores cuja expressão literária contemplou a configuração temática - na poesia, mas também na ficção e, no caso de Boto, no teatro - dos dramas do ser humano que sente e se sabe "queer".

Neste passatempo «o jovem público leitor» (alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do ensino Secundário) é convidado a participar num torneio poético evocativo de António Botto - celebrando-se os 50 anos da morte do poeta - e de Jorge de Sena - assinalando o 90.º aniversário do nascimento deste poeta.

As modalidade de participação consistiram na glosa e desenvolvimento, em verso ou em prosa de ficção, de uma das estrofes fornecidas, duas de cada poeta - as que republicamos neste post.

Na nota introduória ao Regulamento do Passatempo, os Organizadores dizem ter procurado «corresponder às recomendações das organizações internacionais no sentido de se promover o diálogo intercultural» e é nesse sentido que promoveram este passatempo: «encarando a leitura regular e o exercício poético como livre e superior expressão do conhecimento humano e da diversidade da natureza humana e como fonte de criatividade e inovação».




I

Afirmam que a vida é breve,
Engano, – a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.

(António Botto, in Pequenas Esculturas, 1925)

II

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.


(António Botto, in Dandismo, 1928)

III

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
[…]


(Jorge de Sena, "Uma Pequenina Luz", in Fidelidade, 1958)

IV

Amo‐te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter‐te, amo‐te mais, e mais ainda
depois de ter‐te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
[… ]


(Jorge de Sena, do "Soneto VIII", in As Evidências, 1955)

09/10/2014

"Ouve, meu anjo", poema de António Boto



"Pouring rain" (2013), por  Mariana Stauffer


Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é um mel?

Calmo, tentou afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas ai!,
— A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misteriosa, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me[,] cerrando
Os olhos para sonhar —
E eu lentamente morria

— Como um perfume no ar!

António Boto



Versão em língua portuguesa, in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 17-18.

26/09/2014

ASSENTO DO BATISMO DE ANTÓNIO BOTO NA IGREJA DE S. PEDRO DE ALVEGA

 Igreja de São Pedro, em Alvega
União das freguesias de Alvega e Concavada, no concelho de Abrantes.
Fonte da imagem: Portugal torrão natal

Consta no livro n.º 6 de 1898, da freguesia de Alvega, que:



«António nasceu às 8 horas (da manhã) do dia 17 de Agosto de 1897.

Filho de Francisco Tomaz Botto e Maria Pires Agudo, neto de Thomaz Rodrigues Botto e Joaquina Maria Theodora (pelo lado de seu pai) e de Manuel Lopes de Paula Agudo e Isabel Pires (pelo lado de sua mãe).

Padrinhos: Joaquim Lopes Lola e António Vicente Mendes [quem leu, descodificou assim!].

Pais, avós e padrinhos moravam no casal de Concavada, freguesia de Alvega.»



Fonte da imagem: 
"Alvega - Tudo o que se passa na nossa Terra", grupo no Facebook

«Foi baptizado a 23 de Janeiro de 1898, na Igreja de S. Pedro de Alvega, pelo Padre Severino Ferreira Santana.»

Cópia do assento do batismo, na Igreja de S. Pedro de Alvega

25/09/2014

O aniversário de António Boto é a 17 de agosto. - Parabéns, António!

António Tomás Botto

nasceu a

17 de agosto de 1897, às 8 horas,

em Concavada
aldeia do concelho de Abrantes.

Teve pai e teve mãe:
É filho do casal
Maria Pires Agudo e Francisco Thomaz Botto.

São três os irmãos:
Carlos, António e Virgílio.

O menino António é único e multifacetado.
Começa por ser e assim continuará sendo
filho e irmão.



Família – por Sarah Afonso

Pintura, óleo sobre tela, 1937
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
Fonte: comjeitoearte.blogspot.com


12/05/2014

Tu mandaste-me dizer - canção de António Boto dedicada «enternecidamente – a Fernando Pessoa»


"Treasures of the night", por Matthew Stradling


Enternecidamente – a Fernando Pessoa


Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
— Nesse dia...
Pintei de negro os meus olhos
E de roxo a minha boca.

As rosas eram aos molhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
— Que fora delgado e belo!
O perfume mais estranho e mais subtil;
E um brocado roxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus ombros florentinos,
Cobertos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em febre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas cintilavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabelo,
Em ondas largas, caía,
Na minha fronte
Ligeiramente sombria.

Pálido sempre; dir-se-ia
Que a palidez aumentava
A minha grande beleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.

A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentado, olhando
O meu vulto refletido
No espelho de cristal;

E afinal,
Nem frescura, nem beleza,
No meu rosto descobri!

— Ó morte, não me procures!
E tu, meu amor, não venhas!...
                            — Eu já morri.

António Boto


Referência:
Versão do poema: «XII» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.