26/12/2014

Pão nosso de cada dia, conto de António Botto



PÃO NOSSO DE CADA DIA

Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.
Na manhã seguinte, perguntou-lhe:
— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?
— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma joia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.
— Foi um sonho de vaidade! – responde a mãe.
E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!
— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma joia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.
O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.
— Com quem estás tu a sonhar? – perguntou a mãe, acordando-a.
— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!
— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!
Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.
— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!
E o moço partiu tristemente.
— O teu orgulho há de perder-te! – dizia a mãe para a filha.
Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:
— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.
— Não te emendas, minha filha, mas hás de pagar bem caro essa fome de grandezas.
Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.
— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.
E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.
— Vou dar a minha mulher os meus presentes! – dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:
— Tudo isto é para ti.
Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:
— Sabes que já tenho fome?
— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! – gritou ele aos seus vassalos.
Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.
— É a única coisa que não te posso dar! – respondeu ele.
E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.
Ela chorou!
— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?
Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

Fote: “Os Contos de António Botto”, Marginália Editora, s/d, segundo o blogue Histórias em Português.


10/10/2014

A tudo quanto me pedes / Porque obedeço não sei - confessa António Boto

Fado (1945) - Cândido Costa Pinto


A tudo quanto me pedes
Porque obedeço não sei:
Vês? – quiseste que eu cantase…,
Pus-me a cantar, e chorei.


António Boto


Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" incluso in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 120.

Anda um ai na minha vida - diz-nos António Boto em "Dandismo"




Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.

Quem mo deu
— Partiu!...
Deixou-me na agrura
Interminável e fria
De ter de o guardar
Como único recurso
De poder viver ainda…

Anda um ai na minha vida,
Como lágrima que passa,
Que passa – mas que não finda.

Dizê-lo? – nada lucrava.
Guardá-lo? – morro a senti-lo.

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.


António Boto



Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" (1928?) inclusa in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 123-124.

Passatempo TORNEIO POÉTICO: Evocação de António Botto e Jorge de Sena", promovido em 2009 pela DGLAB



Em 2009, no âmbito do Dia Mundial da Poesia (21 de março), do Dia Mundial do Livro (23 de abril) e do Ano Europeu da Criatividade e Inovação, a Direcção‐Geral do Livro e das Bibliotecas lançou um passatempo, não só interessante por promover as competências de leitura e de escrita como também formativo, evocando dois poetas/escritores cuja expressão literária contemplou a configuração temática - na poesia, mas também na ficção e, no caso de Boto, no teatro - dos dramas do ser humano que sente e se sabe "queer".

Neste passatempo «o jovem público leitor» (alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do ensino Secundário) é convidado a participar num torneio poético evocativo de António Botto - celebrando-se os 50 anos da morte do poeta - e de Jorge de Sena - assinalando o 90.º aniversário do nascimento deste poeta.

As modalidade de participação consistiram na glosa e desenvolvimento, em verso ou em prosa de ficção, de uma das estrofes fornecidas, duas de cada poeta - as que republicamos neste post.

Na nota introduória ao Regulamento do Passatempo, os Organizadores dizem ter procurado «corresponder às recomendações das organizações internacionais no sentido de se promover o diálogo intercultural» e é nesse sentido que promoveram este passatempo: «encarando a leitura regular e o exercício poético como livre e superior expressão do conhecimento humano e da diversidade da natureza humana e como fonte de criatividade e inovação».




I

Afirmam que a vida é breve,
Engano, – a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.

(António Botto, in Pequenas Esculturas, 1925)

II

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.


(António Botto, in Dandismo, 1928)

III

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
[…]


(Jorge de Sena, "Uma Pequenina Luz", in Fidelidade, 1958)

IV

Amo‐te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter‐te, amo‐te mais, e mais ainda
depois de ter‐te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
[… ]


(Jorge de Sena, do "Soneto VIII", in As Evidências, 1955)

09/10/2014

"Ouve, meu anjo", poema de António Boto



"Pouring rain" (2013), por  Mariana Stauffer


Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é um mel?

Calmo, tentou afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas ai!,
— A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misteriosa, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me[,] cerrando
Os olhos para sonhar —
E eu lentamente morria

— Como um perfume no ar!

António Boto



Versão em língua portuguesa, in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 17-18.

26/09/2014

ASSENTO DO BATISMO DE ANTÓNIO BOTO NA IGREJA DE S. PEDRO DE ALVEGA

 Igreja de São Pedro, em Alvega
União das freguesias de Alvega e Concavada, no concelho de Abrantes.
Fonte da imagem: Portugal torrão natal

Consta no livro n.º 6 de 1898, da freguesia de Alvega, que:



«António nasceu às 8 horas (da manhã) do dia 17 de Agosto de 1897.

Filho de Francisco Tomaz Botto e Maria Pires Agudo, neto de Thomaz Rodrigues Botto e Joaquina Maria Theodora (pelo lado de seu pai) e de Manuel Lopes de Paula Agudo e Isabel Pires (pelo lado de sua mãe).

Padrinhos: Joaquim Lopes Lola e António Vicente Mendes [quem leu, descodificou assim!].

Pais, avós e padrinhos moravam no casal de Concavada, freguesia de Alvega.»



Fonte da imagem: 
"Alvega - Tudo o que se passa na nossa Terra", grupo no Facebook

«Foi baptizado a 23 de Janeiro de 1898, na Igreja de S. Pedro de Alvega, pelo Padre Severino Ferreira Santana.»

Cópia do assento do batismo, na Igreja de S. Pedro de Alvega

25/09/2014

O aniversário de António Boto é a 17 de agosto. - Parabéns, António!

António Tomás Botto

nasceu a

17 de agosto de 1897, às 8 horas,

em Concavada
aldeia do concelho de Abrantes.

Teve pai e teve mãe:
É filho do casal
Maria Pires Agudo e Francisco Thomaz Botto.

São três os irmãos:
Carlos, António e Virgílio.

O menino António é único e multifacetado.
Começa por ser e assim continuará sendo
filho e irmão.



Família – por Sarah Afonso

Pintura, óleo sobre tela, 1937
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
Fonte: comjeitoearte.blogspot.com