08/02/2015

Relembrar as "Notas sobre a atitude lírica de António Botto" por Manuel Anselmo

Manuel Anselmo (1911-1992)








Fonte: ANSELMO, Manuel (1934) «Notas sobre a atitude lírica de António Botto», in Soluções críticas. Coimbra: Imprensa da Universidade, p. 85-104 - citação da p. 90 – [escrito em “Viana do Castelo, 1933 / Foz do Douro, 1934”].

Obtenha o ebook na biblioteca digital da Casa Fernando Pessoa.




















12/01/2015

RETRATO DE ANTÓNIO BOTTO (1970), por Ary dos Santos

Mustang, in Fading Americans

RETRATO DE ANTÓNIO BOTTO


Um efebo cavalo
uma nereide potro
o fálus ou o halo
          és o outro   és o outro!

És a grande diferença
de seres intermitente
mar de mágoa   presença
dos deuses entre a gente.
És o Olimpo limpo
pela água da fonte
azulíneo limbo
da linha do horizonte.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

É para além do polo
magnético do cio
teu desvio de Apolo
a tiritar de frio.

É para lá que vives
é para lá que morres
e cantando proíbes
deseperando corres.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

És a simples fragata
chamando o marinheiro
és a gota   és a gata
de puro corpo inteiro.
a menina varina
sardinheira de Alfama
e às vezes a vagina
que um homem tem na cama.

És o silvo   o apito
O encoberto do cais
És o mito   és o grito
De quem não pode mais.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

Isto eu diria acaso   ou isso   ou isso
Se a palavra que temos nos chegasse
Para clamar   poeta   flor   justiça
como se amor, António, não bastasse!



 José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)
Imagem, em Agenda de Lisboa


Fonte:
«Retrato de António Botto», in José Carlos Ary dos Santos & Nuno Calvet – Fotos-grafias. Lisboa, Col. “Poesia”, 1: Quadrante, 1970. – Edição fac-símile por A Bela e o Monstro / República Final, Unipessoal, Lda., 2014; reprod. em Ary dos Santos / Vinte anos de poesia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1984, pp. 118-119.


10/01/2015

António Botto: a construção de um ser gay masculino numa periferia cultural, por Anna Klobucka




António Botto: 

The Making of a Gay Male Self on a Cultural Periphery


Na Cardiff University ,
66a Park Place, Cardiff, CF10 3AS
16/03/2015, 17:30 - 19:30





«Professor Anna Klobucka (University of Massachusetts Dartmouth) presents a talk on António Botto.

The life and literary career of Portuguese poet António Botto (1897-1959) remain largely unknown outside of Portugal despite his unique status as the author of candid and joyfully unapologetic homoerotic poetry, which was published on the open market in progressively expanded editions of his Canções (Songs) from the early 1920s through the 1950s. Born into a poor working-class family and lacking any formal educational background, Botto was also for that reason an unlikely candidate for admission to Portugal’s literary elite, which he nonetheless joined due in good measure to the efforts of his close friend and champion Fernando Pessoa.

Professor Klobucka’s work on Botto draws both on his published writings and on the vast trove of his late manuscripts held by the National Library in Lisbon with the aim to chronicle and explore the writer’s elaborate, lifelong enterprise of self-fashioning and performance of identity that in some respects parallels but also significantly departs from the examples provided by his better-known contemporaries such as André Gide and Federico García Lorca.

Wine reception and refreshments to follow.»

Fonte: Eventos, na página de Cardiff University.


26/12/2014

Pão nosso de cada dia, conto de António Botto



PÃO NOSSO DE CADA DIA

Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.
Na manhã seguinte, perguntou-lhe:
— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?
— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma joia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.
— Foi um sonho de vaidade! – responde a mãe.
E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!
— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma joia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.
O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.
— Com quem estás tu a sonhar? – perguntou a mãe, acordando-a.
— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!
— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!
Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.
— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!
E o moço partiu tristemente.
— O teu orgulho há de perder-te! – dizia a mãe para a filha.
Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:
— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.
— Não te emendas, minha filha, mas hás de pagar bem caro essa fome de grandezas.
Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.
— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.
E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.
— Vou dar a minha mulher os meus presentes! – dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:
— Tudo isto é para ti.
Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:
— Sabes que já tenho fome?
— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! – gritou ele aos seus vassalos.
Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.
— É a única coisa que não te posso dar! – respondeu ele.
E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.
Ela chorou!
— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?
Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

Fote: “Os Contos de António Botto”, Marginália Editora, s/d, segundo o blogue Histórias em Português.


10/10/2014

A tudo quanto me pedes / Porque obedeço não sei - confessa António Boto

Fado (1945) - Cândido Costa Pinto


A tudo quanto me pedes
Porque obedeço não sei:
Vês? – quiseste que eu cantase…,
Pus-me a cantar, e chorei.


António Boto


Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" incluso in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 120.

Anda um ai na minha vida - diz-nos António Boto em "Dandismo"




Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.

Quem mo deu
— Partiu!...
Deixou-me na agrura
Interminável e fria
De ter de o guardar
Como único recurso
De poder viver ainda…

Anda um ai na minha vida,
Como lágrima que passa,
Que passa – mas que não finda.

Dizê-lo? – nada lucrava.
Guardá-lo? – morro a senti-lo.

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.


António Boto



Versão em língua portuguesa, no livro "Dandismo" (1928?) inclusa in As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 123-124.