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16/01/2014

«Podes levar as rosas que trouxeste» - disse António Boto

Ilustração de M. Lapa, em O livro das mil e uma noites,
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.


Podes levar as rosas que trouxeste.

Não as quero,
Nem me digas
Que hás de ser perpetuamente
O motivo mais ardente,
— O maior motivo
Das minhas cantigas.

Enganámo-nos, meu bem.

Agora que já conheço
Todo o sabor dos teus beijos
Quero-te menos, e sinto
A febre de outros desejos
Que não podes entender.

Mas hei de lembrar-te, juro.
E tanto quanto puder.


António Boto




Versão do poema in [“Curiosidades estéticas” de ] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 46.

27/12/2013

«O mais importante na vida», poema de António Boto


A criação de Adão - fresco pintado por Michelangelo
Teto da Capela Sistina, no Vaticano. Fotogr. de Christophe EYQUEM

O mais importante na vida
É ser-se criador, criar beleza.

Para isso,

É necessário adivinhá-la
Aonde os nossos olhos não a possam ver.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim. O mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados,
Imitando a fé pela mão do amor.



António Boto







Texto publicado, originalmente,  in Curiosidades estéticas... (1924).
Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 45-46.
Nota: No verso 8.º, utilizei uma variante, a da versão de 1941 [Canções – 1.º vol. das OC].