26/12/2013

[Homem que vens de humanas desventuras] - soneto de António Boto
























Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida, te enamoras,
Que tudo sabes mas que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras.

Que te ajoelhas pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras
E na ambição das causas mais impuras
És grande simplesmente quando choras.

Que prometes cumprir para esquecer,
E trocando a virtude no pecado,
Ficas brutal se ele não der prazer.

Arquiteto do crime e da ilusão,
Ridículo palhaço articulado,
Eu sou teu companheiro, teu irmão.


António Boto


Versão publicada in As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, p. 313.