28/12/2013

«Não. Beijemo-nos, apenas», poema de António Boto

Doctor Who - The kiss by maXKennedy

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda —
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me — sou outro...

A névoa da noite cai. 
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos — És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: — não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!
— Que mais precisamos nós?



António Boto



Versão publicada no Livro primeiro de As canções de António Botto. “Nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 
11-12.