"Treasures of the night", por Matthew Stradling
Enternecidamente – a Fernando Pessoa
Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
— Nesse dia...
Pintei de negro os meus olhos
E de roxo a minha boca.
As rosas eram aos molhos
Para a noite rubra e louca!
Entornei sobre o meu corpo,
— Que fora delgado e belo!
O perfume mais estranho e mais subtil;
E um brocado roxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus ombros florentinos,
Cobertos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em febre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas cintilavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabelo,
Em ondas largas, caía,
Na minha fronte
Ligeiramente sombria.
Pálido sempre; dir-se-ia
Que a palidez aumentava
A minha grande beleza!
Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.
A noite vinha tombando.
E, como tardasses,
Fiquei-me, sentado, olhando
O meu vulto refletido
No espelho de cristal;
E afinal,
Nem frescura, nem beleza,
No meu rosto descobri!
— Ó morte, não me procures!
E tu, meu amor, não venhas!...
— Eu já morri.
António Boto
Referência:
Versão do poema: «XII» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.
