12/05/2014

Tu mandaste-me dizer - canção de António Boto dedicada «enternecidamente – a Fernando Pessoa»


"Treasures of the night", por Matthew Stradling


Enternecidamente – a Fernando Pessoa


Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
— Nesse dia...
Pintei de negro os meus olhos
E de roxo a minha boca.

As rosas eram aos molhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
— Que fora delgado e belo!
O perfume mais estranho e mais subtil;
E um brocado roxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus ombros florentinos,
Cobertos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em febre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas cintilavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabelo,
Em ondas largas, caía,
Na minha fronte
Ligeiramente sombria.

Pálido sempre; dir-se-ia
Que a palidez aumentava
A minha grande beleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.

A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentado, olhando
O meu vulto refletido
No espelho de cristal;

E afinal,
Nem frescura, nem beleza,
No meu rosto descobri!

— Ó morte, não me procures!
E tu, meu amor, não venhas!...
                            — Eu já morri.

António Boto


Referência:
Versão do poema: «XII» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.