12/01/2015

RETRATO DE ANTÓNIO BOTTO (1970), por Ary dos Santos

Mustang, in Fading Americans

RETRATO DE ANTÓNIO BOTTO


Um efebo cavalo
uma nereide potro
o fálus ou o halo
          és o outro   és o outro!

És a grande diferença
de seres intermitente
mar de mágoa   presença
dos deuses entre a gente.
És o Olimpo limpo
pela água da fonte
azulíneo limbo
da linha do horizonte.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

É para além do polo
magnético do cio
teu desvio de Apolo
a tiritar de frio.

É para lá que vives
é para lá que morres
e cantando proíbes
deseperando corres.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

És a simples fragata
chamando o marinheiro
és a gota   és a gata
de puro corpo inteiro.
a menina varina
sardinheira de Alfama
e às vezes a vagina
que um homem tem na cama.

És o silvo   o apito
O encoberto do cais
És o mito   és o grito
De quem não pode mais.

          Um efebo cavalo
          uma nereide potro
          o fálus ou o halo
               és o outro   és o outro!

Isto eu diria acaso   ou isso   ou isso
Se a palavra que temos nos chegasse
Para clamar   poeta   flor   justiça
como se amor, António, não bastasse!



 José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)
Imagem, em Agenda de Lisboa


Fonte:
«Retrato de António Botto», in José Carlos Ary dos Santos & Nuno Calvet – Fotos-grafias. Lisboa, Col. “Poesia”, 1: Quadrante, 1970. – Edição fac-símile por A Bela e o Monstro / República Final, Unipessoal, Lda., 2014; reprod. em Ary dos Santos / Vinte anos de poesia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1984, pp. 118-119.


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