19/12/2013

Canção «EU ONTEM PASSEI O DIA» [1922] de António Boto


Mural em grafíti "Lusíadas" [pormenor], na Av. da Índia
em Lisboa. Autoria de ARMcollective
Imagen e mais informação in revista Visão



Com todo o meu afeto – a Teixeira de Pascoaes

Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de águas sem fim…

Ó sepultura da minha raça,
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

«Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
— Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
………………………………

E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!

António Boto



Versão deste poema, in Canções, 2.ª ed., Lisboa: Olisipo, 1922.
[Canção n.º "XXVI" desta edição]

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