30/12/2013

PALAVRAS DUM FAISÃO - de António Boto

Narciso e «um azul cor de céu quando há sol»

Perdi-me d'amor!

É uma pomba muito azul —-
Um azul cor de céu quando há sol;
E hei de fugir com ela
Por causa dum rouxinol ciumento
Que me apoquenta
Dizendo
Melodias de ironia penetrante.
Iremos
A esse país nevoento,
Lendário, belo, distante,
Lá onde a Lua se esconde
Em névoas que eternamente lá pairam...

Ó névoa, porque envolveis
O país de Lord Byron?

Às vezes
Penso num pajem que me teve
E num rei que me beijava
Quando a Rainha dormia...
Mas quando lho disseram
Bateu-me tanto
Que eu em longos ais morria...

Não ouvem?...

Lá continua
De novo
O rouxinol a dizer...
Ai, mas, se houver
Uma pequena verdade
No que ele insinua
—- É lume caindo numa ferida —-
Jamais aqui voltarei:

Num lago da velha Escócia
Darei fim à minha vida.
  
António Boto



Versão in ["Aves de um parque real" de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 235-236.