— Como ela
vinha!
Morna, suave,
Muito branca,
aos tropeções,
Já sobre as
coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.
E via —
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas
rasgando
Os bordões de
uma guitarra,
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro, — tristeza!...
E eu,
devagar morrendo…
O teu rosto moreninho,
— Tão formoso!
Mostrava-se
mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.
Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
— Era dia!
E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!
Versão in [Livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 12-13.
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