25/01/2014

«Bendito sejas», de António Boto

Dioniso conduzindo uma pantera - mosaico, em Pella

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Boto



Versão in [livro primeiro de] As canções de António Botto, “nova edição definitiva”, Lisboa: Bertrand, 1956, pp. 15-16.