25/01/2014

«Por uma noite de Outono», um poema de António Boto

MM em The Last Sitting, do fotógrafo Bert Stern,1962

Por uma noite de Outono
Lá nessa nave sombria,
Hei de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
— Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.

António Boto



Versão do poema: «II» de Canções, Lisboa: Olisipo, 1922.